sábado, 18 de julho de 2009

O CD “VIDA É PRA GASTAR”

Paulo Façanha e seus parceiros, de letra e estúdio, fizeram tudo com uma unidade e um compromisso que não deixaram nada a desejar, o que apenas confirma a essência eminentemente pop desta criação, passível de agradar, e muito, em qualquer lugar do país. Misturando a MPB mais atual com os tais clássicos que a substanciam aqui e acolá, algo da sua lavra. Façanha seguiu sua rotina com os músicos do álbum já bastante temperados pelos palcos e estúdios, é mais uma tentativa de reverter uma certa indiferença, acomodação e indisposição, ressaltando que temos mais é que gastar os nossos valores. Gastar no sentido de valorizar, de usufruir, de deleitar-se com gente como Paulo Façanha.

Trabalhado por seis anos, “Vida é pra gastar” reúne um time de feras que se revezam no baixo, Júnior Meirelles, Tim Fontelles e Dudu Freire; na guitarra, Davi Fernandes, Mimi Rocha e o mesmo Júnior Meirelles; na bateria, Adriano Azevedo, Denílson Lopes e Kelson Nunes; no teclado, Ítalo Almeida e Ibbertson Nobre, e na programação de teclado, Tim Fontelles e Sérgio Medeiros. De quebra, Jorge Vercillo ao violão e dividindo o vocal na sua “O que você fez”, em que Paulo não se contenta em seguir a linha das baladas do carioca, conduzindo-a com mais calor entre um arranjo mais quebrado.

Paulo Façanha está mais solto, em relação a registros solo anteriores, em parte, graças a seus músicos, deitando e rolando entre o pop funkeado da escola de Djavan. Na seqüência natural, “Você vai ver” (Júnior Meirelles) é uma faixa do álbum que começa numa festa de metais programados, em clima ao vivo, linguagem despojada que se mantém até o fim, “Chega de tanto” (Júnior Meirelles) capricha nos vocalises de Paulo e no teclado vintage de Ítalo. “Estação” (Paulo Façanha/Marinho Júnior) tem um dos arranjos mais surpreendentes: o teclado de Ibbertson, o baixo de Dudu e a guitarra de Davi dão uma vibração irresistível, remetendo ao pop de Lulu Santos, falando em verão de maneira leve, algo estranho ao nosso universo. Paulo Façanha se mostra bem entre timbres eletrônicos, oxigenando ainda mais o CD.

. Na seqüência, uma das canções mais consistentes da recente música cearense: “Tantos versos” (Paulo Façanha/Gilmar Nunes/Dalwton Moura), latin-bossa fincada pelo piano de Ibbertson, a batera de Adriano, a guitarra de Davi e o vocal de Mister X. Além da interpretação de Paulo, à vontade entre um arranjo despretensioso e um lirismo que remetem à dupla Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle. Ainda leve Paulo envereda por outra balada funkeada, madura: justamente, “Vida é pra gastar”, parceria com o experiente Amaro Penna, guiada pela guitarra de Mimi Rocha.

A programação de Sérgio Medeiros traz um naipe de metais para o hit “Quando a noite chegar” (Paulo Façanha e Beto Paiva) gravado por Vercillo. Molho que reforça o refrão já conhecido, sem perder a vibração, sob o calor de Façanha. Um refresco vem na romântica “Pra ti” (Paulo Façanha/Cacá Raimundo), lembrando referências mais acústicas de Djavan, mas numa letra que “pesca” elementos pouco inspirados, desde o título. Logo voltamos ao clima mais direto e consistente das baladas da noite inteira de Paulo, nas três últimas: Com o velho parceiro, Paulo transita até por uma linha mais regional, embora sejam Davi, Ibbertson e Dudu que guiem “Pra ver o sol”, mais do que as quebradas interessantes, não só a regional, mas os improvisos, inclusive vocais, confirmando a maturidade do músico e intérprete cearense, noutro acerto da dupla. O violão, o baixo (Dudu) e o backing dão um molho irresistível a “Por todo lugar” (Paulo Façanha e Dalwton Moura), letra curtinha, mas intensa, com o funk-jazz espalhando um som de uma informalidade característica da tradição lírica mais descolada. O clima é estendido à festa funkeada de “Toda boca que beija” (Paulo Façanha e Beto Paiva), cujo fato poético humano ganha até rap no canto versátil de Paulo Façanha. Suas músicas soam cada vez mais prontas pra serem muito bem gastas por aí.

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